quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Problemas Dermatológicos

As doenças dermatológicas são as afecções mais frequentes e frustrantes. Causam ansiedade no tutor do animal que deseja que as lesões sejam examinadas prontamente, além de incomodar muito o próprio paciente. Para que o diagnóstico do problema seja feito, é necessário um bom exame clinico no animal.

A pele responde de forma limitada aos diferentes tipos de injúrias, o que resulta no aparecimento de lesões semelhantes em um amplo espectro de doenças e ainda, lesões que não apresentaram resolução definitiva e são apenas parcialmente controladas, o que exige um acompanhamento prolongado do paciente.

O histórico completo é essencial para a compreensão da progressão das lesões, e consequentemente a evolução da doença. O tutor do animal tem que saber falar ao medico veterinário dermatologista informações básicas a respeito do animal! Saber do que ele se alimenta, se for fêmea a data do seu ultimo cio, e principalmente a data das vacinações! O histórico completo é essencial para compreensão da doença, um diagnóstico rápido e a instituição precoce do tratamento.

                                                                 Poodle com Alopecia Focal por estresse

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Dois pesos uma medida

O Spok é um cão, Cocker, de 13 anos. Seu tutor, um senhor muito simpático, ficou preocupado, pois notou um aumento de volume na sua bochecha. Havia um nódulo, um caroço, aquela doença. Tão ruim que não merecia nem sequer ser mencionada. Esse caroço atrapalhava a ingestão de água, comida, e como estava entre os dentes, era mordiscava o tempo todo, exalando um cheiro desagradável (carniça) e atraindo moscas. Ele chegou aqui com varigeira (miiase). Sua brabeza era proporcional a sua dor, que logo foi solucionada.

Diagnóstico do Patologista: Melanoma amelanótico. As células neoplásicas não sintetizam melanina intracitoplasmática, e devido a esta característica, podem induzir um diagnóstico errôneo, pois histologicamente podem mimetizar outros neoplasmas, como linfomas, carcinomas pouco diferenciados, tumores neuroendócrinos, sarcomas pouco diferenciados e tumores de células germinativas. A distinção entre um melanoma amelanótico e outros neoplasmas pobremente diferenciadas é um desafio ao patologista. A melanina intracitoplasmática é um marcados distinto de melanomas, no entanto, essa não é sintetizada em subtipos amelanóticos, ou está presente em raras células neoplásicas podendo ser confundida com outros pigmentos. O diagnóstico mais preciso nos casos de melanoma amelanótico é a associação da histopatologia com a imuno-histoquímica (IHQ), visto que a confirmação da IHQ é frequentemente necessária para estabelecer o prognóstico e a terapêutica mais adequados. Portanto alguns estudos tem demonstrado a utilização de marcadores úteis na diferenciação dos melanomas dos demais tumores.

Os melanomas amelanóticos foram observados principalmente na cavidade oral e representam 57,1% dos casos. O comportamento maligno das neoplasias melanócíticas é amplamente dependente da localização do tumor, de maneira que a grande maioria dos melanomas orais é considerada maligna. O melanoma é mais comum em cães velhos. Cães com a pele pigmentada são mais predispostos. Dos cães com raça definida, os mais afetados foram Poodle, Dachshund e Cocker.

Tratamento: Diante do crescimento rápido da neoplasia, localizada próximo aosdentes pré molares da região da mandibula, que apresentava a superfície alterada, odor fétido devido a lesões necróticas ricas em sangue, dor e incomodo ao animal foi proposto excisão cirúrgica com ampla margem de segurança. O ideal era a remoção da mandíbula (mandibulectomia), levando em consideração o alto poder metastático da neoplasia. Questões como a idade do animal e qualidade de vida foram ponderadas. A quimioterapia foi proposta.

O Spok passa bem e feliz, com seus 13 anos.

Animal entubado, sendo preparado para exerese da massa tumoral

pós cirurgia imediato

7 dias após a cirurgia





Fonte:
Veronica M. Rolim; Renata A. Casagrande; Tatiane T. Watanabe; Angelica T. Wouters; Flademir Wouters; Luciana Sonne e David Driemeier. Melanoma amelanótico em cães: estudo retrospectivo de 35 casos (2004-2010) e caracterização imuno-histoquímica. Pesq. Vet. Bras. 32(4):340-346, abril 2012.


B Kemper; G O Carvalho; S M Trapp; W Okano; F N Padilha. Melanoma oral em cão. Relato de três casos. Medicina Veterinária, Recife, v.6, n.1, p.18-23, jan-mar, 2012

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Porque a gente tem que fazer o que deve ser feito

A primeira vista é claro que fazemos uma leitura visual do aspecto do animal e temos sim nossa primeira impressão. E nossa primeira impressão pode não ser a mais justa.

Porque aquela alteração, que incomoda o dono, surgiu ontem! Mas ontem não deu para levar no veterinário, por falta de tempo, por falta de dinheiro, por falta de paciência.... Então o ontem, de anteontem, da semana passada, progrediu junto com a alteração demonstrada hoje.

Não é só dono de bicho que faz isso não. Quantas vezes protelamos assuntos que não deveriam ser protelados? Porque não organizamos nosso tempo adequadamente? Aí quando batemos nosso carro, ou quando somos requisitados para um funeral por exemplo, nossas prioridades mudam!

Então quando adiamos alguma coisa é porque não queremos fazer aquilo, por vários motivos. 

Mas se você tem um bichinho, não protele em cuidar dele.

Eu entendo que quando um proprietário procura uma casa de ração, um leigo, está buscando uma alternativa mais barata para resolver o seu problema. Assim como nós todos, compramos DVD´s piratas, ou coisas mais acessíveis que necessitamos. Um médico veterinário, que é o profissional preparado para atender, já tem suas limitações, imagina um leigo, que aplica vacina de gato em cachorro achando que assim ele vai começar a miar!!!!

Eu fico apavorada quando atendo um bichinho que sente dor crônica. Tento compreender o seu dono, porque qualquer que seja a sua trajetória, de falta de informação ou de informação errada, ele também sofre internamente por ter procurado ajuda tarde demais. E talvez esse seja seu martírio. 

#emoçãoxrazão

terça-feira, 25 de março de 2014

Como ter cães e gatos sem pulgas

Pulgas são excelentes saltadoras, podendo saltar aproximadamente 18 centímetros na vertical e 33 na horizontal, e muito resistentes, graças a presença de placas na superfície de seu corpo.

Se quisessem as pulgas poderiam ganhar a vida como atletas, pois algumas podem pular a distância equivalente a 100 vezes o tamanho do próprio corpo: se medem 3 mm, pode dar um salto de até 30 cm. Isso equivale a uma pessoa de 1,70m dar um pulo de 170 m. Cada andar de um prédio equivale a aproximadamente 3 m, então 57 andares.

Na ausência de alimento, podem ficar meses sem alimentar-se, permitindo sua sobrevivência. Muitas delas se alimentam de sangue de mamíferos e aves, graças a peças bucais adaptadas para perfurar e sugar.

As pulgas fêmeas põem ovos no hospedeiro 48 horas após a 1ª. refeição de sangue, cerca de 15 a 20 ovos por dia (aproximadamente 2.000 ao longo da vida) e esses são lançados fora do corpo do hospedeiro, em ninhos, covas, solo e até em carpetes e frestas de pisos. Deles em aproximadamente 12 dias, saem as larvas. As larvas se alimentam de dejetos, restos de pele e outros resíduos. Depois se transformam em pupas, que é a forma mais resistente.  Em condições propícias, temperatura, humidade e movimento, eclodem em pulgas, que é a forma adulta e procura um hospedeiro para alimentar-se.

As pulgas são parasitas externos e os animais podem pegar no ambiente ou de outros animais. Elas picam muitas vezes ao dia, o que causa muita coceira e algumas vezes alergia, feridas e queda de pelo.

 Curiosidades:
As pulgas não pulam no escuro;

As pulgas podem picar o homem, se não tiver nenhum cão ou gato por perto.

Os ovos de se desenvolvem no ambiente;

Os ovos das pulgas caem do corpo de um animal infestado, e são depositados nos locais ondem o animal circula, pavimentos, rodapés, frestas, gretas, tapetes, cestos, camas de dormir, cobertores, almofadas, sofás, bancos de automóveis, garagens, ...;

Os ovos em poucos dias passam a larvas, que se escondem em locais escuros;

Além da utilização de produtos antipulgas nos animais, é necessário cuidar do ambiente;

As larvas alimentam das fezes das pulgas, que é o sangue digerido;

O desenvolvimento das pulgas é mais rápido no calor. O seu ciclo pode durar 10 dias, enquanto no inverno 140 dias.

A pupa, a forma mais resistente da pulga, ajuda a manter infestações latentes, porque prolonga o seu ciclo;

Aspirador de pó não aspira pupa;

As pulgas vivem inteiramente em cima do cão ou gato;

A pulga é hospedeiro intermediário de um verme, Dipylidium caninum;

Dipylidium caninum é um verme intestinal, instalam-se no aparelho digestivo e trazem riscos para os animais e para o homem;

Os animais podem ingerir as pulgas pelo hábito de coçar;


O homem pode ingerir uma pulga acidentalmente, através do hábito de espreme-la entre as unhas;

domingo, 5 de janeiro de 2014

A importância do vocabulário

Quando entrei para a faculdade era o cúmulo do absurdo falar de forma inadequada. Trocando em miúdos, não podia em hipótese nenhuma relatar que um animal estava com os filhotes agarrados, o professor queria ouvir da gente que a fêmea enfrentava um parto distócico. 

Outro erro muito comum na área da parasitologia, que irrita profundamente os pesquisadores e cientistas é falar que o vetor da leishmaniose visceral é um mosquito. Nunca foi mosquito, porque o ciclo do mosquito é diferente do flebótomo, e tem mais é comuníssimo dizer parasita para a Leishmania sp., o que também está errado, porque parasita na maioria das vezes trabalha em Brasília, o certo é parasito.

Há ainda muita controvérsia sobre se o animal tem sinais clínicos ou sintomas. Sinal é aquilo que pode ser percebido por uma pessoa e sintoma é a queixa relatada pelo paciente mas que só ele consegue perceber. Como nosso paciente animal ainda não fala ele tem sinais clínicos.

Ahh tá!....

Então quando fui fazer meu primeiro termo de consentimento livre e esclarecido levei um tapa de luvas. Tinha que escrever de forma que qualquer pessoa entendesse o que estava escrito. Fiquei frustada, porque tive que escrever “mosquitinho” para o vetor da leishmaniose.



Mas isso tudo me ajudou a me posicionar o meu modo de falar diante do meu cliente. Quando explico as coisas será que ele está me entendendo? Não adianta nada eu gastar nos termos técnicos e o meu cliente não entender nada.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Bolo de Natal

Todo mundo sabe que eu sou uma negação na cozinha, que só sei fazer strogonof de frango, salpicão de frango, mouse, beijinho e Bolo. Acreditem Bolo.

Mas não é qualquer bolo, é o tão esperado bolo de natal, que só eu sei fazer, aqui de casa né!

Cada ano ele sai de uma maneira diferente. Certa vez ele cresceu tanto, que comecei a ficar desesperada, foi vazando bolo para fora da forma, achei que não ia sobrar nada no tabuleiro, e o que sobrou ficou solado. Solado, pois é solado. Foi a vez que ficou melhor! Achei que ninguém iria comer, e não sobrou nada.

Esse bolo traz lembranças de um passado cheio de histórias. Ganhei um pedaço há uns 14 anos atrás da Dona Efigênia e do Senhor Walter Hausse. Eu era inquilina deles.

A massa antes era misturada no muque, esse ano foi feito na batedeira e foi a maior festa aqui em casa.
meu ajudante oficial, que é melhor que eu na cozinha

a massa

bolo crescendo


Agora chega de mimimi e vamos logo para a receita.

Bolo Viennense de mel
6 ovos; 500 g de açúcar; 600 g de farinha de trigo; 1 colher de sopa de pó royal; 1 colher de café de bicarbonato; 1 copo de mel; 1 copo de café coado morno; Sumo de 1 limão; 1 maça; 200 g nozes; 150 g passas.


Rechear com doce de leite

O próximo passo é comer.....

Desejo a todos um ótimo natal, com a mesa cheia de amor!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Seminário internacional de leishmaniose visceral canina - 2013

Esse final de semana, aconteceu mais um seminário internacional de leishmaniose visceral canina. E eu, sou figurinha carimbada nessa programação e privilegiada pois acontece na minha cidade natal, onde o organizador desse evento reside.

Para que se entenda a problemática é necessário saber de algumas coisas.

A leishmaniose é uma doença endêmica em 88 países, em sua maioria em países em desenvolvimento. Cerca de 90% dos casos mundiais ocorrem na Índia, Bangladesh, Nepal, Sudão e Brasil. O Brasil é o país americano com maior número de casos. Em 2009, essa endemia atingia vinte estados brasileiros. É a terceira doença de expansão vetorial no mundo.

Distribuição espacial dos casos de LVA no Brasil – 1993 a 1988, 1989 a 1994, 1995 a 2000 e 2001 a 2006. ALVES, W.A. Leishmaniose visceral americana: situação atual no Brasil. Bepa 2009; 6(71): 25-29. Slid apresentado pela Dr. Jane Cris de Lima Cunha (Fiocruz)

A região nordeste, entre os anos de 2000 a 2010, foi responsável por 47,5% dos casos humanos, ficando um pouco à frente do Estado de Minas Gerais.

Slid apresentado pela Dr. Jane Cris de Lima Cunha (Fiocruz)

A doença afeta principalmente crianças menores de 10 anos e indivíduos do sexo masculino. A infecção em crianças é justificada por ainda não ter o sistema imunológico formado. As crianças afetadas são pobres, e uma percentagem considerável vão morrer. O sofrimento dessa família é silencioso, por isso os casos não chegam na mídia. A leishmaniose só terá repercussão quando a doença se elitisar, para falar mais claro, quando crianças de gente rica morrer. Será que vamos ter que esperar isso acontecer para fazermos alguma coisa?

Isso foi uma das questões levantadas pela Dra. Jane Cris de Lima Cunha (Fiocruz), que nos fazem refletir. O que podemos fazer para mudar esse cenário?

A leishmaniose visceral (LV) é uma zooantroponose de ampla distribuição mundial. Zooantroponoses são doenças primarias nos animais e podem ser transmitidas aos homens. Mas não fique pensando aí, que a solução é exterminar os cães para controlar a doença humana. Já foi comprovado cientificamente que isso não resolve. Que outros animais fazem parte da transmissão, inclusive os gatos, além das raposas, roedores e outros recentemente descritos.

A infecção é transmitida aos mamíferos pela picada de um flebótomo, a Lutzomyia longipalpis (que não é mosquito e nunca foi mosquitinho), por que ela, a fêmea, diferentemente dos mosquitos, deposita seus ovos em matéria orgânica em decomposição, por isso é tão difícil combate-la. Além disso, o flebótomo, adaptou-se as condições domésticas em que vivemos atualmente. Para vocês terem uma ideia, eu já capturei os flebotomíneos na minha residência, e olha que são pequenininhos (2 a 4 mm de comprimento) e meu orientador capturou no seu apartamento, além de outros relatos que são divulgados no meio acadêmico, mas somente um olho treinado é capaz de realizar essa identificação.

As fêmeas dos flebotomíneos retiram do sangue a fonte de proteínas e aminoácidos que necessitam para o desenvolvimento dos ovos. Chegam a ovipor até 47 ovos em uma única postura. As fêmeas dos flebotomineos só se infectam com o protozoário Leishmania infantum, se o hospedeiro em que ela se alimentar, estiver infectado. Relembrando: cão, gato, roedores, homem... e se estes hospedeiros não estiverem disponíveis, ela se alimenta de qualquer coisa, porque ela precisa dos nutrientes que o sangue contem para ovipor e se manter viva no meio ambiente.


Slid do Dr. Filipi Dantas Torres (Bari University/ Fiocruz/ Brasileish)

Por esse motivo, não podemos falar que ela prefere o cão, que ela prefere o gato, o humano, ou a galinha. Parece que ela prefere o que está mais disponível. Como os flébotomos preferem ficar em locais escuros, úmidos e com matéria orgânica em decomposição, quem perde nessa história são os animais. São eles que são linha de frente, são eles que ficam no quintal e estão mais disponíveis. Mas o meu animal só fica no apartamento! Mas os flebótomos sobem de elevador, e estão se adaptando em novos ambientes. Eles são ecléticos, evoluídos e acompanham as novas tendências!

Slid Filipi Dantas Torres (Bari University/ Fiocruz/ Brasileish)

Por essa razão, dos flebotomineos serem tão espertinhos, eles dão um “olé” nos pesquisadores. Como ele gosta de sangue, podemos colocar uma isca para eles, como galinhas por exemplo. As galinhas não se infectam, elas só servem para o repasto sanguíneo das fêmeas de flebotomíneos. Mas em contrapartida, aumentamos a população dos flebotominios na região e aumentamos a chance deles de infectarem, e corremos o risco de nos infectarmos.

Slid Dr. Filipi Dantas Torres (Bari University/ Fiocruz/ Brasileish)

Mas como ele se infecta? Não dá para responder quem nasceu primeiro, se foi o ovo ou a galinha.

Sabemos que para o parasito se desenvolver no tubo digestivo das fêmeas de flebotomineos, é necessário um pH ideal. E se alterassemos esse pH? Os flebotomineos se adaptariam as adversidades. Afff..... então!?

É necessário muita pesquisa ainda....

Por causa dessa alta prevalência na nossa região, é necessário proteger os animais contra a picada dos flebotomíneos. Atualmente dispomos somente de produtos para cães, como a coleira Scalibor, produtos spot on, como pulvex, advantage max 3 e produtos para aspergir como o Defendog. Esses produtos são tóxicos para os gatos e não devem ser utilizados neles.

Essa é a primeira parte do seminário, que foi uma maravilha. Tentei agrupar as informações de acordo com o que foi abordado, mas ainda tem muiiita coisa. Os palestrantes apresentaram com propriedade o assunto. Diante disso é impossível não ser fã deles.